
Pesquisa Febraban: IA para além do piloto
agosto 27, 2026A 36ª edição do maior evento de tecnologia do setor financeiro brasileiro fechou com 70 mil visitas, 627 palestrantes e 220 painéis. Mas o número que importa não é o de público: é o de convergência. Pela primeira vez, IA deixou de ser pauta isolada e passou a ser discutida como parte de uma arquitetura que envolve dados, nuvem, segurança, regulação e, claro e principalmente, as pessoas – “Agentes inteligentes, liderança humana”. Esse foi o mote, o reconhecimento de que a próxima etapa da transformação bancária não será vencida por quem adotar mais tecnologia, e sim por quem souber combinar IA, Tecnologia, Contexto, Inteligência Humana, o que advogamos e fazemos na Solutis.
Por isso organizamos alguns dos destaques do evento (sim o conteúdo é extenso e profundo) nas quatro inteligências que estruturam nosso posicionamento — contextual, artificial, tecnológica e humana. Não como recorte editorial, mas porque foi assim que o setor falou.
INTELIGÊNCIA QUE IMPULSIONA RESULTADOS
Contextual: a leitura que antecede a escolha da tecnologia
Nenhuma solução produz o mesmo resultado em todos os contextos.
Joel Mokyr, Nobel de Ciências Econômicas de 2025, abriu a programação internacional com a pergunta que atravessou os três dias: o crescimento é sustentável? Ele apontou a dificuldade crescente de chegar a ideias verdadeiramente divisoras de água e localizou o risco não na tecnologia, mas na reação social e institucional a ela: “o inimigo não é a tecnologia, somos nós”. Observou ainda que a China avança em trajetória silenciosa e pode assumir a liderança global em inovação.
Esther Dweck, ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, tratou do papel das infraestruturas digitais e de identidade para a soberania e o crescimento do país — pauta que conecta diretamente Financial Services e Public Sector.
No plano global, Michael Abbott, líder mundial de Banking da Accenture, apresentou o estudo Top Banking Trends 2026: Unconstrained Banking. Duas das seis tendências são de leitura de contexto puro: a disputa pelo balanço se intensifica, com mais de US$ 200 trilhões em depósitos e empréstimos sob pressão de fintechs, stablecoins e crédito privado; e o dinheiro fica mais inteligente, com até US$ 13 trilhões em valor transacionado migrando para métodos alternativos até 2030.
O que isso significa na prática
Decisões tecnológicas tomadas sem leitura de ambiente regulatório, maturidade operacional e momento de negócio podem produzir projetos corretos no papel e irrelevantes na operação.
INTELIGÊNCIA QUE IMPACTA
Artificial: do piloto ao agente
A IA é o meio. O impacto é a medida.
Os números da Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026, realizada pela Deloitte e divulgada durante o evento, mostram uma tecnologia que saiu da vitrine:
- R$ 3 bilhões previstos em IA, Analytics e Big Data em 2026 (alta de 8%)
- 84% dos bancos apontam IA generativa como prioridade
- 92% identificam ganho de velocidade em tarefas rotineiras como principal benefício
- 52% citam redução do tempo de resposta ao cliente, corte de custos e eficiência na análise de dados
- 48% já percebem ganhos em detecção e prevenção de fraudes
A virada de estágio está no tipo de aplicação. Depois de anos usando IA em risco, atendimento e antifraude, os bancos passaram a testar sistemas capazes de executar sequências de tarefas, consultar bases distintas e tomar decisões operacionais sob supervisão humana.
Os casos apresentados pelos próprios CEOs dão a escala:
- Itaú saltou de 300 mil para 3 milhões de clientes atendidos por alguma solução de IA, com ganho de visão holística do cliente.
- Bradesco informou que a BIA já processou 74 milhões de transações, dentro do objetivo de “um banco para cada cliente”.
- Nubank aplica GenAI de forma preditiva, inclusive em crédito, além de experiência, marketing e tarefas do dia a dia.
- BTG sintetizou o estágio de adoção: “a pergunta não é se estamos usando IA, e sim em qual área ainda não estamos utilizando”.
- Caixa partiu de um diagnóstico duro: “há três anos era uma selva analógica” transitando para uma jornada de captura de boas práticas de mercado.
- Santander alertou que é preciso enxergar o “filme” e não a “foto” dos dados, combinando tecnologia com produtos que gerem valor.
Abbott reforçou o ponto com a tese do “banco 10×”: capacidade, e não headcount, é o número que importa, com potencial de até 40% mais capacidade destravada por IA. O estudo estima US$ 289 bilhões em benefícios potenciais com GenAI em escala nos próximos três anos entre os 200 maiores bancos globais, e ROI 2,5 vezes maior em programas patrocinados diretamente pelo CEO.
O que isso significa na prática
O diferencial deixou de ser ter IA. É saber onde aplicá-la, com que dado, sob qual governança e para qual resultado de negócio.
INTELIGÊNCIA QUE RESOLVE
Tecnológica: engenharia que sustenta a promessa
Tecnologia só gera valor quando resolve um problema real.
O orçamento tecnológico dos bancos brasileiros deve alcançar R$ 50,4 bilhões em 2026, alta de 8% sobre 2025 e de 58% em cinco anos. Dentro dele, o movimento mais expressivo veio da infraestrutura: R$ 3,9 bilhões para migração de cloud, crescimento de 30%.
A ordem de prioridades diz muito: cibersegurança aparece como prioridade para 100% das instituições pesquisadas, seguida de cloud (84%) e IA/GenAI (até 84%). Não há agente autônomo sem base que o sustente.
A escala explica a exigência. Foram 240,8 bilhões de transações em 2025, com 83% em canais digitais e 78% via mobile — canal que cresceu 169% em cinco anos.
Radia Perlman, cientista da computação – conhecida como a “mãe da Internet”, tratou justamente do gargalo: uma nova geração de aplicações exige mais processamento, conectividade, disponibilidade de dados e segurança das redes. O painel “O mindset da próxima onda da tecnologia bancária: quem decide?”, com CIOs dos seis maiores bancos, atacou o mesmo problema pelo lado da priorização, num cenário em que IA, dados, cibersegurança e resiliência operacional avançam simultaneamente.
Dois alertas estruturais talvez mereçam uma lupa:
A dívida técnica é o freio real. Segundo a Accenture, cerca de 70% do orçamento de TI é consumido apenas pela manutenção do legado, com custos de tecnologia crescendo cerca de 4 vezes mais rápido que a receita bancária. Modernizar deixou de ser projeto de eficiência e virou condição de viabilidade.
Agente exige arquitetura nova. Um modelo que apenas gera resposta tem um conjunto de riscos; um agente conectado a sistemas transacionais tem outro. Daí a recomendação de uma função dedicada de AgentOps. Ou seja, um time com processo e ferramental próprios que monitora desempenho e governança da frota de agentes, ao invés de outra camada de IA autônoma.
O AgentOps responderia pelo ciclo de vida: quais agentes entram em produção, sob quais critérios, com que métricas de desempenho, e quando são revogados.
Um framework de identidade vem junto porque muda a natureza do risco. Um modelo que só devolve texto erra uma resposta. Um agente com credencial em sistema transacional executa. Então cada agente precisa de identidade própria, permissões bem definidas e trilha de auditoria.
No Brasil, Ivo Mósca, diretor de Inovação, Produtos e Segurança da Febraban, apontou o arsenal já em uso: autenticação multifator, biometria comportamental, IA e monitoramento preditivo, com especialistas em segurança presentes nos conselhos de administração.
O que isso significa na prática
Arquitetura, sustentação e escala não são etapa anterior à inovação. São o que decide se ela chega à produção.
INTELIGÊNCIA QUE APROXIMA
Humana: o gargalo que ninguém automatiza
Nenhuma transformação tecnológica gera impacto sem começar pelas pessoas.
O tema da edição já colocava a liderança humana como contraponto aos agentes autônomos, e os dados confirmaram que o setor está tratando isso como investimento, não como discurso:
- R$ 29,4 milhões previstos para treinamento e capacitação em IA e IA Generativa em 2026, alta de 31%
- 70% das instituições já possuem ou estão desenvolvendo estratégias de requalificação profissional
- R$ 100,4 milhões investidos em treinamentos de tecnologia no último ano, com 226,1 mil profissionais capacitados
O diagnóstico mais direto veio dos painéis de modernização: o maior obstáculo não está no código nem na infraestrutura, mas na capacitação das equipes e na maturidade dos processos. De nada adianta modernizar se o custo do processo superar o de manter o ambiente como está.
John Maeda, referência em design computacional, fechou a agenda internacional de keynotes com a mesma leitura por outro ângulo: à medida que sistemas ganham autonomia e assumem tarefas mais complexas, cresce (e não diminui) a importância das decisões humanas sobre estratégia, cultura, governança e uso responsável da tecnologia.
A dimensão humana também apareceu na agenda de segurança. O painel “Engenharia social e o desafio da proteção do cliente” apontou que a fraude que mais preocupa o setor não é a que explora a falha do sistema, e sim a que explora a confiança, o sentimento, a emoção do cliente.
Em outra vertente, o CEO da Caixa, Carlos Vieira, descreveu a saída da “selva analógica” como uma jornada de duas frentes: imitar boas práticas já testadas pelo mercado e engajar todo o corpo de funcionários na mudança.
O que isso significa na prática
A capacidade de supervisionar sistemas, reconhecer erros, interpretar exceções e assumir responsabilidade por decisões (que não são delegáveis à IA) virou competência crítica de negócio.
EM SÍNTESE
O Febraban Tech 2026 confirmou o que a Solutis vem defendendo: nenhuma dessas quatro inteligências, isoladamente, responde à complexidade atual do setor financeiro. Ou, ao menos, potencializa o impacto para o negócios e o usuário.
Contexto sem tecnologia é diagnóstico sem execução. Tecnologia sem contexto é investimento sem retorno. IA sem pessoas é automação sem julgamento. E pessoas sem arquitetura é boa intenção que não escala.
O setor investirá R$ 50,4 bilhões em 2026. A pergunta que ficou no Anhembi não é quanto, nem em qual tecnologia — é quem vai conseguir combinar as quatro capacidades na proporção que cada desafio exige.
Fontes: informações coletada no Febraban Tech 2026 (24 a 26 de agosto, Distrito Anhembi, São Paulo), na Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026 (Deloitte), e no estudo Top Banking Trends 2026 da Accenture, ambos apresentados também no evento.




